inês botelho 

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Jornal – "Jornal de Notícias"

Data – 21 de Abril de 2010

Jornalista – Sérgio Almeida

Título – “Há uma visão estereotipada da juventude”

Subtítulo – Autora regressa ao romance com O passado que seremos, retrato de uma geração de jovens ainda à procura do papel a desempenhar na sociedade de hoje

Destaque – “Há muito que cultivo o hábito de tentar entender o outro, a forma como pensa e actua”

Texto

A juventude de Inês Botelho é inversamente proporcional à experiência que possui no meio literário. Aos 23 anos, já publicou uma trilogia sobre o fantástico que esgotou várias edições, o romance Prelúdio e O passado que seremos, a obra mais recente, uma reflexão ficcional sobre os desafios enfrentados pela juventude actual.

Em que medida o par romântico reflecte os anseios da juventude?

Não quis amarrar demasiado a Elisa e o Alexandre a representações desta ou daquela faceta da sociedade. Ainda assim, o livro é indissociável da juventude actual. Eles apresentam duas formas de encarar a realidade, são dois aspectos possíveis desta juventude. Há uma visão muito estereotipada do que é a minha geração e eu quis alargar o horizonte, sair dos chavões e da propaganda.

Houve algum acontecimento que tenha desencadeado o interesse na escrita deste romance?

Não. Tenho uma lista enorme de histórias que quero contar e, quando estou prestes a terminar um livro, começo a ponderar as várias hipóteses e decido qual vou trabalhar a seguir. Ao início, a narrativa era muito centrada na relação entre a Elisa e o Alexandre. Mas, à medida que os ia conhecendo, o foco de interesse mudou.  A questão da geração nasceu acoplada à Elisa e ao Alexandre. Como não me agrada retratar assuntos demasiado próximos da minha vivência quotidiana, demorei muito a aceitar este aspecto.

Como se faz pesquisa para um livro como este, fortemente alicerçado nas relações humanos?

É um trabalho de actor, vive de uma sequência de perguntas e da procura de respostas. Mas também é o resultado da filtragem e da transformação de tudo o que se observou, viveu, extrapolou, imaginou. Essa é sempre a base, o terreno fértil para o início da criação. Há muito que cultivo o hábito de tentar entender o outro, a forma como pensa e actua, ainda que discorde da ideologia ou desaprove a conduta. Não preciso de me identificar com a pessoa para a perceber; apenas tenho de saber que existem outros raciocínios, outros pontos de vista, outras formas de actuar e reagir.

Acha que já esbateu a imagem de autora fortemente ligada ao fantástico?

De certo modo, acredito que sim, mas é um assunto complicado. Há uma tendência para encarar esta mudança de género de duas formas erradas. Uns assumem que agora enveredei finalmente pela literatura séria, seja lá isso o que for; outros consideram estes romances contemporâneos como desvios pontuais promovidos pela necessidade de exorcizar certos acontecimentos pessoais. Não se pode controlar, ou prever, os rótulos a que nos associam.

Admite regressar a este género?

Claro. Gosto imenso das várias vertentes do fantástico e encontro-lhes variadíssimas possibilidades. Aliás, não descarto géneros porque não há géneros de que não goste, há apenas abordagens e livros que me desagradam ou desapontam.

Dedica muito tempo à pesquisa. É a chave do processo criativo?

Não, mas é o alicerce indispensável, o que impede que a estrutura se construa no ar e desabe a qualquer momento. O que se aprende na pesquisa não tem de estar exposto no livro, mas segura-o.

A sua formação académica (em Biologia e Estudos Anglo-Americanos) é invulgar. Essa diversidade é um reflexo da busca permanente de conhecimentos?

É o resultado do interesse por várias áreas. Quando terminei a licenciatura, percebi que, apesar do fascínio pela Biologia, estava muito mais ligada à literatura e queria continuar a trabalhar nessa área.

Viver da escrita é um objectivo?

É um objectivo, mas gostava de articulá-la com outras áreas e envolver-me em projectos que exigem à escrita uma linguagem diferente da da ficção.

Como é que os seus leitores de sempre têm acompanhado a evolução dos livros que escreve?

Ao contrário do que imaginei, a maioria reagiu positivamente; houve até quem gostasse mais dos romances contemporâneos. Mas claro que outros preferiam mais livros de fantástico, ou, até, uma continuação da trilogia.

Como analisa, à distância de mais de uma década, as primeiras experiências ficcionais?

Até aos 11 anos estava plenamente convencida de que ia ser escritora e escrevinhava muito, começava imensos projectos que abandonava sempre. Era uma criança muito esforçada, com muita vontade, mas sem uma voz autoral. A pausa fez-me muito bem. Cresci, mudei, tornei-me mais crítica e ganhei uma perspectiva diferente. Aos 16 anos comecei o que viria a ser A Filha dos Mundos. Claro que hoje, aos 23 anos, não escreveria a trilogia do mesmo modo, talvez nem sequer a conseguisse escrever; perdi a inocência necessária para engendrar aquela história, o que é natural, ainda que tão positivo quanto negativo.

 

"Viver da escrita é um objectivo, mas gostava de articulá-la com outras áreas"

Jornal – "Jornal de Letras"

Data – 27 de Janeiro de 2010

Jornalista – Maria João Martins

Título – Inês Botelho - Curiosodade sem fim

Texto

Junta o melhor de dois mundos: as Letras e as Ciências e, com isso, desconcerta uma sociedade ainda demasiado apegada às velhas fronteiras do saber. Inês Botelho, nascida em Vila Nova de Gaia há 23 anos, licenciou-se em Biologia e está, neste momento, a fazer o mestrado em Estudos Anglo-Americanos. Dessa abrangência disciplinar, espera, há-de resultar uma escrita também ela avessa a rótulos e a definições. O Passado que Seremos, o seu novo romance (edição Porto Editora), conta uma história de amor e crescimento emocional, "rompendo", desta forma, com o género fantástico a que nos habituara com a trilogia O Ceptro de Aerzis (composta pelos livros A Filha dos Mundos, A Senhora da Noite e das Brumas e A Raínha das Terras da Luz).

Jornal de Letras: O Passado que Seremos é um romance intimista. Despediu-se do género fantástico?

Inês Botelho: A tradicional divisão de géneros diz-me pouco. O que me interessa é responder com qualidade a desafios novos. Este livro nasceu de uma ideia muito simples: uma história de amor e crescimento narrada alternadamente pelos seus dois protagonistas, mas colocou-me problemas interessantes.

Por exemplo?

Nos meus livros anteriores (quer a trilogia quer o romance Prelúdio, publicado em 2007), a narração desenrolava-se na terceira pessoa, agora passei para a primeira. Senti que passara para um novo nível de exigênciaficam que me obrigava a ter um conhecimento mais profundo das personagens e um meior controlo da evolução da narrativa.

Levou muito tempo a escrevê-lo?

Fiz investigação durante ano e meio, dois anos, depois escrevi durante uns cinco meses. Mas foi muito absorvente. Escrevi este livro num ano sabático entre a conclusão da licenciatura e o início do mestrado.

Tem um percurso académico invulgar. A passagem da Biologia para os Estudos Anglo-Americanos significa uma opção clara pela Literatura?

Creio que ambas as áreas contribuem de forma interessante para o meu trabalho literário e, na verdade, nunca senti esse abismo. Os meus pais são da área de Ciências, mas sempre tiveram a preocupação de incluir as Artes na minha Educação: estudei Música e fiz Dança. Hoje sinto que a licenciatura em Biologia não só me abriu horizontes como contribui para o vocabulário que emprego (utilizo, por exemplo, muitos termos anatómicos). A opção pelos Estudos Anglo-Americanos permite-me, por sua vez, abordar a Literatura de um ponto de vista que não é o do autor nem do leitor, mas o da crítica.

É uma estudiosa?

Pode-se dizer que sim. Só não gosto de ser avaliada.

 

 

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