inês botelho 

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Jornal – "Audiência"

Data – 24 de Janeiro de 2012

Jornalista – Cristina Maia

Título – “A bióloga que sonhou com um mundo maravilhoso”

Subtítulo – Inês Botelho tem 25 anos e cinco obras editadas

Destaque – “O Senhor dos Anéis” teve para mim uma grande vantagem, que foi fazer-me perceber que há uma componente do maravilhoso - algo que sempre me interessou bastante - que não tem que ser necessariamente infantil nem exclusivamente para a infância. Isso foi importante. A partir daí comecei a ter uma ideia para aquilo que viria a ser a trilogia.

Texto

Começou por escrever “historietas” quando ainda a infância era muita e os sonhos imensos. Aí, já sabia que queria ser escritora. Depois veio a música, a Biologia e “os outros planos”. Mas sempre soube que queria ser escritora. Por isso é que, aos 15, se aventurou nas primeiras palavras de uma curta vida que a literatura devotou ao sucesso. Foi o primeiro livro da trilogia “O Ceptro de Aerzis” e o início de um percurso com que sonhou, mas que não esperou. Porque, mesmo sabendo que, um dia, acabaria por ser escritora, nunca calculou que o alcance da literatura simples, inocente e submissa ao (seu) mundo maravilhoso se transformasse em súbitos best sellers. Por isso, concluiu a licenciatura em Biologia, ultrapassou os erros ortográficos, esqueceu o sonho da representação e, de facto, tornou-se escritora. Hoje tem 25 anos. “Só” 25 anos, mas uma mão cheia de livros escritos, de edições esgotadas e um mundo fantástico à espera. Chama-se Inês Botelho, é natural de Vila Nova de Gaia, e fala ao AUDIÊNCIA do lado “fantástico e maravilhoso” do seu mundo.

Iniciou a paixão pela escrita muito cedo. Quando é que tudo começou?

Para ser uma história exacta, a paixão começou há muitos anos. Desde bebé que os meus pais tiveram a óptima ideia de me darem livros. Eu gosto muito de livros, não só enquanto objecto literário, mas também enquanto objecto físico. Ao mesmo tempo, a minha mãe tem uma capacidade estupenda de inventar histórias, de continuar histórias, de inserir-me como personagem nas minhas histórias favoritas. Durante vários anos tive esta ideia quase obsessiva de que queria ser escritora. E escrevinhava muito consoante as leituras do momento. Adorava policiais. Então começava histórias, mas depois desinteressava-me, deixava de as escrever. Por volta dos onze anos, com uma amiga comecei uma espécie de romance, mas nunca me interessei muito por aquilo e desisti ao fim de 20 páginas. Aos 12 anos peguei na pasta onde tinha os ficheiros que tinha escrito e ri-me durante uma tarde inteira. Guardei-a, porque achei que passados uns anos ia querer rir-me outra vez, e fui passando a outra questão. E nunca mais voltei à escrita enquanto exercício para mim. Não escrevia por iniciativa própria.

E quando é que essa tendência se inverteu?

Aos 14 anos aconteceu uma coisa engraçada. Já há muito tempo que eu queria ler “O Senhor dos Anéis”. “O Senhor dos Anéis” teve para mim uma grande vantagem, que foi fazer-me perceber que há uma componente do maravilhoso – algo que sempre me interessou bastante - que não tem que ser necessariamente infantil nem exclusivamente para a infância. Isso foi importante. A partir daí comecei a ter uma ideia para aquilo que viria a ser a trilogia. Era uma ideia muito básica, muito simples. Mas gostei dela. E comecei a brincar com ela. Quando se foi desenvolvendo, cheguei a um ponto em que achei que iria tentar começar a escrever.

Quando é que começou a escrever a trilogia “O Ceptro de Aerzis”?

Nas férias do 10º para o 11º ano, já tinha a história mais ou menos estruturada, já sabia que a iria dividir em três partes, muito a contragosto, porque eu andava um pouco farta de trilogias. Mas depois percebi que tinha uma história demasiado grande para um único volume. A história era dividida em três gerações, e portanto teria mesmo que ficar dividida em três partes. Lá tive que engolir o sapo (risos). Nas férias não tinha nada de jeito para fazer, e comecei a tentar fazer aquilo, tentando que não fosse pura e simplesmente lixo. Quando o acabei entreguei-o à minha professora de Português, porque queria uma opinião isenta e idónea. Depois dei também aos meus pais, que insistiram muito que o publicasse. Essa não era de todo a minha intenção, era apenas um desafio próprio. A Gailivro foi muito rápida a aceitar e, a partir do momento em que tive uma resposta positiva, pedi os exemplares de volta e começou assim. Foi um bocadinho inconsciente.

A influência da mitologia na trilogia “O Ceptro de Aerzis” foi também uma influência d’ “O Senhor dos Anéis”?

É engraçado que “O Senhor dos Anéis” é sempre a obra mais citada quando se fala na trilogia, mas é provavelmente a obra que menos me influenciou. É muito fácil ver “O Senhor dos Anéis” na trilogia por causa dos Elfos mas, em termos de estrutura, não tem muito a ver, nem o objectivo era minimamente esse. Eu tenho, desde criança, um interesse pela mitologia grega, que veio muito influenciada pela Odisseia e a Ilíada. Comecei a pesquisar muito sobre isso desde miúda, desinteressadamente. E foi útil para construir a trilogia, porque estava no meu subconsciente. E se há uma obra que influencia a trilogia suponho que seja “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley.

Se escrevesse a trilogia hoje, dez anos depois, fá-lo-ia da mesma forma?

Eu não sei se hoje seria capaz de escrever a trilogia. De alguma forma perdi a inocência necessária. Mas aquela fase foi importante. Eu não gosto muito de pensar em mexer na trilogia. As coisas têm a sua época. E desconfio que, se fosse tentar mexer na trilogia hoje, ia arruinar o que ela tem de positivo. Então prefiro deixá-la como está. Eventualmente retirar apenas pronomes possessivos e pessoais em excesso. Mas acho que ela tem o seu público e é definitivamente minha. Eu reconheço-me ali. Lembro-me perfeitamente da rapariga que era aos 15, 16 e 17 anos.

Gosta de manter esse seu lado intacto?

Mais do que manter esse lado intacto, acho que é importante deixar a obra como ela é de facto. E não torná-la naquilo que ela não é nem nunca pretendeu ser. Ela tem o seu lugar, o seu público, os seus pontos de interesse. Tem muita coisa que podia ser melhorada, mas também tem muitas coisas positivas que eu, se calhar, iria destruir ao tentar alterar. Há assuntos em que eu não iria pensar agora, formas de ver que eu já não iria ter. Eu cresci, e ainda bem que cresci. A trilogia foi o que foi e ainda bem que é. Não é racional estar a mexer-lhe.

A trilogia abriu-lhe a porta do mundo da literatura?

A trilogia abriu-me a porta e deu-me a noção de que isto é válido. Se eu não tivesse publicado a trilogia, teria terminado os estudos, teria seguido a minha vida por Ciências e nunca teria pensado seguir profissionalmente pelo lado da literatura. Por isso a trilogia será sempre para mim muitíssimo importante.

A trilogia foi sempre associada a um público infanto-juvenil. Mas essa não era a sua intenção inicial…

A trilogia pode ter um público muito vasto. Eu ainda não tinha as capacidades de escrita que tenho hoje. Portanto, a linguagem é muito simples, muito acessível. De alguma forma a temática está mais próxima de um público infanto-juvenil e juvenil. O outro problema é que a trilogia nunca foi feita para ser uma história de aventuras ou uma história romântica. Sempre teve uma intenção muito simbológica. E há uma grande dificuldade de camadas mais jovens em perceberem esse subtexto, que foi o que sempre me interessou na trilogia. Nesse sentido, um público mais adulto consegue tirar um prazer da trilogia que a maioria das camadas mais jovens não consegue. Eu nunca quis restringi-la a um público infanto-juvenil.

 

“Eu tinha 17 anos. Era uma miúda, não uma escritora”

 

Quando as edições começaram a esgotar, ficou surpreendida?

Fiquei. Fiquei completamente estupefacta, já para não dizer parva (risos). Sempre achei que o livro nunca ia ser lido por mais de cem pessoas, os amigos que eu consegui que estivessem na apresentação. A trilogia não foi construída nesse sentido. Já tinha abandonado as fantasias de ser escritora. Não estava obcecada com essa questão, o que foi óptimo. Parti para aquilo sem qualquer tipo de expectativas. Tinha outros planos.

Quais eram os seus planos nessa altura?

Os meus planos eram seguir Ciências, licenciar-me em Biologia e depois seguir para Londres, para trabalhar lá, e ao mesmo tempo tentar um curso de representação. Já nessa altura eram ideias completamente delirantes (risos). A literatura era algo que eu gostaria que acontecesse, mas se não acontecesse não me ia afectar muito. De repente, quando me apercebi que havia gente a gostar, que nem sequer era só do meu grupo de amigos, foi inacreditável. Eu não percebia muito bem como é que aquilo era possível. Só quando o terceiro livro da trilogia saiu é que eu comecei a dizer que era escritora.

Até aí não era escritora?

Durante muitos anos ser escritora não era normal. Quando fui a uma entrevista e vi em rodapé que a minha profissão era escritora, eu achei que as pessoas não estavam a perceber muito bem o que é que se estava a passar. Eu tinha 17 anos, era uma miúda. Não era escritora. Não me considerava. Os meus heróis sempre foram os escritores, desde criança, e estarem a pôr-me um rótulo que eu atribuía a gente extraordinária, era impensável. E ser escritora, para os meus amigos, passou a ser mais uma piada.

E a representação, foi um sonho adiado?

Não sei. Se um dia surgir, surgiu. Não é necessariamente algo para o qual eu esteja a trabalhar. Continuo a gostar imenso, mas neste momento a minha profissão está ligada à literatura e é aí que eu estou a trabalhar. Posso acabar por escrever guiões para peças de teatro. Mas a questão da representação não sei até que ponto será possível. Se surgir, adoraria. A verdade é que eu abri portas na área da literatura e não na área da Biologia. Achei que de facto estava muito mais orientada para a literatura do que para a Biologia. Ainda que não fosse impossível optar pela Biologia, era mais lógico ir pela literatura.

 

Depois da Trilogia… o “Prelúdio”

 

“Prelúdio” e “O Passado que Seremos” são a expressão de uma Inês Botelho adulta?

Não no sentido de o meu lado mais adulto não comportar o fantástico. Eu continuei a trabalhar em fantástico, e é um género de que eu gosto muito (embora eu não goste de usar a expressão ‘género’ porque é mais um rótulo). O fantástico é-me muito grato. Sempre tive uma grande componente do maravilhoso. E, mesmo nestes dois últimos livros, há essa componente. É importante, porque é uma parte do meu raciocínio e que se reflecte em qualquer coisa que eu escreva. Esses livros são o meu lado mais maduro apenas porque cresci, porque passaram mais anos, porque tenho mais técnica, mais capacidades, porque sei mais. Não gosto de me restringir a géneros enquanto leitora, e também não gosto de me restringir a géneros enquanto escritora, até porque detesto estar sempre com os mesmos horizontes e os mesmos motivos. Eu precisava de mudar, de tentar outra coisa, e de ver se era capaz de o fazer. Os livros também me permitiram tentar outro tipo de género, outro tipo de abordagens e construções. O “Prelúdio” ainda é uma fase de evolução, que surgiu ainda antes de um conjunto de leituras que me seriam extremamente importantes. Na altura houve muita gente que ficou surpreendida, outras ficaram zangadas por ter mudado de género, por não ter continuado a história. Quando estive em Erasmus, em Milão, como só tinha duas disciplinas, tinha tempo para ler livros que ainda não tinha pensado ler. Foi aí que descobri os modernistas, que me mudaram completamente a visão da literatura. “O Passado que Seremos” é muito mais reflexo disso. É outro tipo de estrutura, outro tipo de raciocínio e outra forma de pensar a literatura. Há outra forma de pensar a palavra escrita. Há outra flexibilidade, há um processo de desconstrução. Tem muitos saltos temporais, imensas analepses. Começou a ser um trabalho cada vez mais consciente, eu sei cada vez melhor o que quero fazer e como estou a fazer, e sou ao mesmo tempo cada vez mais perfeccionista, demoro cada vez mais tempo porque quero controlar sempre cada vírgula do livro. Por isso é que eu digo que o meu último livro é sempre aquele de que eu mais gosto porque é aquele em que eu estou mais solta.

Mais próxima da perfeição?

Esperemos que nunca lá chegue. Quando chegar à perfeição estagnei. O último livro é sempre aquele que me é mais grato, o que não quer dizer que seja aquele que o leitor mais goste.

Quem se apaixonou por Inês Botelho na trilogia, continua a gostar de Inês Botelho nestas duas obras?

Acho que depende das pessoas. Eu não tenho muita noção disso. Sou eu em todos os livros, mas sou eu ao longo dos anos, com perspectivas diferentes, com formas diferentes de encarar a vida, as minhas posturas, as minhas idiossincrasias. Há questões que, de alguma forma, se mantêm sempre, como o maravilhoso, a simbologia, o imaginário, a infância, a morte, as famílias. Mas até que ponto é que os leitores gostam de acompanhar, depende dos leitores. O leitor que seja como eu, que não esteja muito preocupado com géneros, acho que o pode fazer. Mas acho que houve quem ficasse aborrecido por eu ter deixado o fantástico-épico de lado.

 

“O meu compromisso é com o livro, não com os leitores”

 

Incomoda-a esse feedback dos leitores ou não se preocupa em fidelizá-los?

Não estou preocupada, porque o meu compromisso é sempre com cada livro que estou a fazer. Eu tenho que ser fiel a esse livro e fazer o melhor possível a esse livro. A quem esse livro vai chegar e a quem vai agradar é algo que me ultrapassa. É imprevisível. E se é imprevisível, não me posso preocupar com isso, nem quero. Esse era outro caminho para voltar ao lodo, e quero evitá-lo a todo o custo. Houve gente que não gostou que eu tivesse mudado de género, houve quem preferisse, houve leitores novos que chegaram, houve quem gostasse de tudo. É impossível agradar a toda a gente. Não posso deixar de ser eu por causa disso.

Foi aluna da Academia de Vilar do Paraíso (AMVP). A música está ou não na sua escrita?

Eu não fui a aluna mais brilhante da AMVP, mesmo em termos de música. Mas a Academia foi essencial na minha formação, não só o que aprendi, mas também pelo grupo que éramos na Academia. A AMVP deu-me uma vivência extraordinária. A música, ainda que eu nunca tivesse sido uma instrumentista brilhante, deu-me a noção inevitável de musicalidade. Deu-me uma noção de ritmo, de sonoridade. Imprimir um ritmo na leitura é uma forma de tentar manipular o leitor. Conseguir fazer isso com a literatura tem sido um dos meus objectivos: usar pontuação como se fossem breves ou semibreves. Sem usar uma linguagem musical, ter uma música dentro do próprio texto e isso ser cada vez mais essencial para a compreensão do texto. Digamos que a maior diferença entre a trilogia e o “Prelúdio” é que o texto passa a ser indissociável e parte integrante da história.

Optou pela literatura, descurando a Biologia. É possível viver só da literatura em Portugal?

Sim é possível, não ainda no nível em que eu estou. Estou a concluir os estudos, e não estou ainda só a pensar nessa questão. Neste momento não é fácil em nenhuma profissão, e as pessoas que conseguem ter uma independência económica hoje são pouquíssimas, independentemente das áreas. Nesse sentido não me arrependo da opção que fiz, porque nada me garante que eu não estivesse na mesma situação (ou ainda pior) se estivesse em Biologia. Somos a geração dos 25/30 anos a viver em casa dos pais porque não têm outra alternativa. Mas, por outro lado, dá-me paz de espírito pensar que estou tão bem ou tão mal aqui como em qualquer outro sítio, tenho o meu caminho a fazer e há que fazê-lo com responsabilidade e profissionalismo, esperando que haja a dose de sorte apropriada, que é sempre precisa.

E projectos para o futuro?

O principal projecto é acabar o livro no qual estou a trabalhar há já algum tempo. Tem sido um processo lento, porque tem sido um livro escrito ao mesmo tempo que o mestrado, o que não é fácil. Eu não gosto muito de falar dos livros antes de eles estarem escritos, primeiro porque é mau criar expectativas, e depois porque percebi que, até os livros estarem escritos, eles funcionam muito bem, mas é na minha cabeça. Acho que vai ser um livro curioso. Acabar o mestrado é também um dos meus projectos mais imediatos.

 

 

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