{"id":1337,"date":"2026-07-19T14:47:59","date_gmt":"2026-07-19T14:47:59","guid":{"rendered":"https:\/\/inesbotelho.com\/?p=1337"},"modified":"2026-07-22T22:25:29","modified_gmt":"2026-07-22T22:25:29","slug":"a-odisseia-de-christopher-nolan-vale-alguma-coisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/2026\/07\/19\/a-odisseia-de-christopher-nolan-vale-alguma-coisa\/","title":{"rendered":"A Odisseia de Christopher Nolan vale alguma coisa?"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Claro que sim. Portanto toma, lei das manchetes de Betteridge; este artigo come\u00e7a com uma pergunta a que pode sem d\u00favida alguma responder-se com uma afirmativa. Suponho que o Betteridge n\u00e3o tinha l\u00e1 muita experi\u00eancia com atrair tr\u00e1fego \u00e0 custa de acicatar raivas.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Christopher Nolan sabe realizar. Ali\u00e1s at\u00e9 os seus filmes mais mediocres d\u00e3o um entretem decente e t\u00eam uma mensagem concreta a transmitir. N\u00e3o acho que lhe reste muito de interessante para dizer, mas tamb\u00e9m n\u00e3o me atreveria a argumentar que obra de Nolan carece de qualidade ou n\u00e3o sabe construir camadas de significa\u00e7\u00e3o. Certo que n\u00e3o gosto realmente dum filme de Nolan desde <i>Interstellar<\/i> (2014), e isso foi j\u00e1 depois dum longo hiato (e a fazer ao m\u00e1ximo por ignorar o mela\u00e7o daquelas falas sobre o amor). Se estivermos a falar de me apaixonar perdidamente por um filme de Nolan, enfim, vou precisar de recuar at\u00e9 <i>Memento<\/i> (2000). Mas nada disso me faz p\u00f4r para aqui a argumentar que este <i>Odyssey<\/i> ficar\u00e1 aqu\u00e9m de um filme em tudo competente.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Agora, <i>The Odyssey<\/i> de Christopher Nolan \u00e9 necess\u00e1rio? \u00c9 sequer especialmente relevante para os tempos que vivemos?<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Nem por isso.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Com base nos trailers e nas obras anteriores de Nolan, torna-se mais ou menos seguro apostar que vamos a caminho de uma <i>Odisseia<\/i> do mundano, n\u00e3o uma de fasc\u00ednios ou maravilhamento. Afinal Nolan ficou famoso \u00e0 custa de tornar o Batman t\u00e3o hiper-realista quanto poss\u00edvel. Mas ver nisso uma faceta emblem\u00e1tica dos nossos tempos esquece que and\u00e1mos h\u00e1 quade duas d\u00e9cadas com a cultura dominada por exageros fantasiosos sobre super-her\u00f3is. Realismo elegante n\u00e3o \u00e9 bem a cena da Marvel, e n\u00e3o faz de todo parte do <i>modus operandi<\/i> desta nossa era de not\u00edcias falsas.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Acresce que adapta\u00e7\u00f5es da <i>Odisseia<\/i> n\u00e3o aparecem s\u00f3 de vez em quando. H\u00e1 obras que ganham uma nova vers\u00e3o a cada gera\u00e7\u00e3o \u2013 como <i>Little Women<\/i>, o <i>Guerra e Paz<\/i>, ou mesmo a habitual lista de super-her\u00f3is com a sua trindade de Super-Homen, Batman, Homem Aranha \u2013, e depois h\u00e1 os mitos, contos de fadas, e cl\u00e1ssicos da Antiguidade que acabam contados e recontados a cada novo ano. Semelhante frequ\u00eancia liberta-os de servirem de sin\u00e9doque dos tempos e converte-os em ve\u00edculos perfeitos para autores experirmirem as suas ideias, opini\u00f5es, e interpreta\u00e7\u00f5es socio-pol\u00edticas.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">A<i> Odisseia<\/i> teve ali\u00e1s outra adapta\u00e7\u00e3o para cinema ainda h\u00e1 menos de dois anos. N\u00e3o uma grande produ\u00e7\u00e3o de Hollywood capaz de levar milh\u00f5es \u00e0s salas de cinema \u2013 nada que se compare com Nolan \u2013 mas ainda assim um filme de calibre respeit\u00e1vel que estreou em festivais, tem Ralph Fiennes e Juliette Binoche nos pap\u00e9is principais, e desencadeou v\u00e1rios artigos em revistas e jornais a ponderar a atratividade da hist\u00f3ria de Ulisses. Depois eis que Nolan anunciou a sua adapta\u00e7\u00e3o e, pasme-se! os m\u00e9dia redescobriram outra vez a Antiguidade Grega e a internet p\u00f4s-se a actuar como se os cantos de Homero fossem uma coisita obscura esquecida durante s\u00e9culos e s\u00e9culos.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Foi a adapta\u00e7\u00e3o que lan\u00e7ou mil publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Imiscuirmo-nos em momentos culturais e oferecer um ou dois bitates sobre os assuntos com que toda a gente anda obcecada \u00e9 quase uma necessidade para quem faz comet\u00e1rio cultural. Basta ver como os calend\u00e1rios editoriais sempre inclu\u00edram entradas dedicadas aos temas do momento. \u00c9 uma forma f\u00e1cil de atrair leitores, espectadores, e ouvintes. Posto em jarg\u00e3o de marketing, no fundo serve como autoestrada para ir de encontro \u00e0s inten\u00e7\u00f5es de pesquisa do p\u00fablico, o que por outro lado melhora a performance em termos de SEO, GEO, AEO, e ajuda a aumentar o volume de cliques e visualiza\u00e7\u00f5es que se tornaram t\u00e3o absolutamente essenciais para que qualquer tipo de presen\u00e7a online consiga um m\u00f3dico de relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Em todo o caso, boas publica\u00e7\u00f5es com algo inteteressante a dizer t\u00eam sempre muito melhores hip\u00f3teses de longividade do que coisas tipo \u201cveja estes outros filmes se gostou da <i>Odisseia<\/i> de Nolan\u201d. E al\u00e9m disso s\u00e3o uma das boas partes de um certo tema de repente virar fen\u00f3meno cultural: mais cedo ou mais tarde algu\u00e9m vai publicar algo especialmente curioso ou pertinente sobre o assunto. Como Yiannis Baboulias, que escreveu sobre <a href=\"https:\/\/yiannisbaboulias.substack.com\/p\/on-the-odyssey-because\">como a cultura grega perdurou<\/a> depois do que costumamos considerar a queda do Imp\u00e9rio Romano mas que de facto corresponde apenas ao colapso do Imp\u00e9rio Romano Ocidental. Baboulias monta um bom caso quer quanto \u00e0s implica\u00e7\u00f5es de o conhecimento comum ignorar esta distin\u00e7\u00e3o quer \u00e0 forma como isso contribui para minimizar a cultura grega e a separar dos cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Se a actual febre pela <i>Odisseia<\/i> s\u00f3 tiver fervor suficiente para que o p\u00fablico descubra uma \u00fanica coisa, que seja este texto de Baboulias. Se der para mais, Natalie Haynes a <a href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/programmes\/m001brj5\">defender a<i> Odisseia<\/i> na r\u00e1dio<\/a> \u00e9 um completo deleite; uns trinta minutos tanto hilariantes como informativos. E o filme <i>O Brother, Where Art Thou?<\/i> (2000) dos irm\u00e3os Coen permanece um grande candidato a melhor transposi\u00e7\u00e3o da <i>Odisseia<\/i> para o contexto do s\u00e9culo XX (n\u00e3o, por muito tecnicamente brilhante que o livro seja, n\u00e3o vou dar esse lugar ao Joyce).<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Em mat\u00e9ria de romances, n\u00e3o consigo decidir-me. Tenho uma certa vontade de recomendar o <i>Ithaca<\/i> (2022) de Claire North porque \u00e9 das adapta\u00e7\u00f5es mais originais dos \u00faltimos anos, tem algo de relevante a dizer sobre poetas e as narrativas que as sociedades constr\u00f5em, e al\u00e9m disso transforma a Hera numa narradora captivante, mas ainda n\u00e3o li o resto da trilogia e n\u00e3o fa\u00e7o ideia se o n\u00edvel se mant\u00e9m. <i>The Penelopiad<\/i> (2005) de Margaret Atwood p\u00f5e toda a verve da escrita ao servi\u00e7o de uma leitura feminista que me pareceu um bocadinho b\u00e1sica de mais. Do <i>Circe<\/i> (2018) de Madeline Miller gostei assim de modo moderado. Portanto, a s\u00e9rio, mais vale ler-se a <i>Odisseia<\/i> de Homero numa tradu\u00e7\u00e3o decente e depois passar-se a outros textos gregos. A<i> Il\u00edada<\/i>, sem d\u00favida, mais algum teatro e depois uns autores romanos. Talvez at\u00e9 as <i>Metamorfoses<\/i> do Ov\u00eddio. As grandes adapta\u00e7\u00f5es de Hollywood tamb\u00e9m servem para isto de novos p\u00fablicos descubrirem os textos originais.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Quanto ao filme de Nolan, as cr\u00edticas apontam para o costume com ele: excelente cinematografia mas efeitos sonoros problem\u00e1ticos, di\u00e1logos algo toscos embora com claras inten\u00e7\u00f5es narrativas, e uma produ\u00e7\u00e3o com a escala monumental dos filmes de outrora ainda que nada interssada nos elementos fant\u00e1sticos desses antigos \u00e9picos. Quando tiver uma oportunidade, logo me sento a v\u00ea-lo.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Toda a obra de Nolan tem-se debru\u00e7ado sobre o conceito do masculino, sobre que narrativas, ideais, circunst\u00e2ncias moldam um homem e a sua vida. Ser\u00e1 interessante ver o que faz com as muitas contradi\u00e7\u00f5es que caracterizam Ulisses, ele que \u00e9 tanto filho como pai, marido e amante, guerreiro relutante mas estratega brilhante; l\u00edder dum grupo em que s\u00f3 ele sobrevivie, rei e trapaceiro.<\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Claro que sim. Portanto toma, lei das manchetes de Betteridge; este artigo come\u00e7a com uma pergunta a que pode sem d\u00favida alguma responder-se com uma afirmativa. Suponho que o Betteridge n\u00e3o tinha l\u00e1 muita experi\u00eancia com atrair tr\u00e1fego \u00e0 custa de acicatar raivas. Christopher Nolan sabe realizar. 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