{"id":1393,"date":"2026-10-06T16:04:30","date_gmt":"2026-10-06T16:04:30","guid":{"rendered":"https:\/\/inesbotelho.com\/?p=1393"},"modified":"2026-10-06T21:07:25","modified_gmt":"2026-10-06T21:07:25","slug":"should-a-nobel-be-required-reading","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/2026\/10\/06\/should-a-nobel-be-required-reading\/","title":{"rendered":"Ser ou n\u00e3o ser parte do programa: Saramago e as leituras obrigat\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Nos idos de 2004 havia um livro em especial que reunia como nenhum outro a ira e descontentamento de centenas, qui\u00e7\u00e1 milhares de alunos do secund\u00e1rio em Portugal: <i>Apari\u00e7\u00e3o<\/i>. A obra de Verg\u00edlio Ferreira animava de tal forma os \u00f3dios \u00e0s leituras obrigat\u00f3rias de portugu\u00eas que conseguia superar at\u00e9 o lend\u00e1rio desamor por aquela excelente, embora algo exuberantemente longa descri\u00e7\u00e3o do <i>Ramalhete<\/i> com que E\u00e7a abre <i>Os Maias<\/i>. Onde E\u00e7a \u00e9 de um ritmo impar\u00e1vel tanto a n\u00edvel da fr\u00e1sica como do enredo, Verg\u00edlio enche-se de vagares; um crime dificilmente perdoavel no fulgor da adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Poucos anos depois a obrigatoriedade de Verg\u00edlio desapareceu dos agrupamentos alheios \u00e0s humanidades de modo a permitir a entrada de Saramago, e os alunos puderam transferir as suas insatisfa\u00e7\u00f5es para Belimunda e frases menos dadas a pontua\u00e7\u00e3o tradicional.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Ainda se debateu um pouco o assunto por jornais e meios intelectuais, em geral com um lado a dizer \u201cSaramago \u00e9 o \u00fanico Nobel da literatura que temos, portanto n\u00e3o pode faltar no programa\u201d, e o outro a achar que \u201cexactamente porque Saramago \u00e9 Nobel, os alunos t\u00eam muito mais probabilidade de o lerem fora da escola do que de abrirem o <i>Apari\u00e7\u00e3o<\/i>.\u201d Mas no fundo a quest\u00e3o deu-se por encerrada sem grandes d\u00favidas ou celeumas. Afinal, Saramago era Nobel j\u00e1 desde 1998 e come\u00e7ava a parecer um bocado displicente que ainda n\u00e3o constasse das leituras obrigat\u00f3rias do programa de portugu\u00eas.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Eu \u2013 acabada de sair do secund\u00e1rio, com dois livros publicados e um terceiro, significativamente mais maduro, na calha \u2013 fiquei com uma certa pena de empurrarmos o <i>Apari\u00e7\u00e3o <\/i>para fora das leituras obrigat\u00f3rias. Ao contr\u00e1rio de todos os meus amigos, colegas, e conhecidos, a obra de Verg\u00edlio fora a minha preferida dos primeiros doze anos de escolaridade. Ali\u00e1s, o dito cujo terceiro livro aprendera uma coisa ou trinta (n\u00e3o necessariamente bem aplicadas) com o <i>Apari\u00e7\u00e3o<\/i>. Se me pediram a opini\u00e3o na altura, provavelmente at\u00e9 disse algo sobre a maior facilidade de dar com Saramago por iniciativa pr\u00f3pria do que com Verg\u00edlio. N\u00e3o que discordasse de ter Saramago no programa; s\u00f3 preferia que se sacrificasse outra obra para o efeito. E se isso perpetuava traumas geracionais com os vagares do professor de \u00c9vora que protagoniza o <i>Apari\u00e7\u00e3o<\/i>, enfim, h\u00e1 anos que isso fazia parte da experi\u00eancia escolar e nem estava entre os piores ritos de passagem.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Entretanto as obras de leitura obrigat\u00f3ria t\u00eam vindo a afrouxar enquanto mat\u00e9ria prima para os grandes traumas colectivos dos alunos em Portugal. Uma certa flexibiliza\u00e7\u00e3o do programa, que permite aos professores escolher as obras a ler de entre algumas op\u00e7\u00f5es por autor ou meta curricular, acabou com essa rel\u00edquia nacional de unir alunos de Norte a Sul num \u00f3dio generalizado a certos livros. Agora at\u00e9 d\u00e1 para se sair da escolaridade obrigat\u00f3ria sem qualquer encontro imediato com o <i>Ramalhete <\/i>dos Maias. E felizmente diversificou-se tamb\u00e9m o leque de autores a ler.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">A grande pol\u00e9mica deste ano sobre a poss\u00edvel, e de facto prov\u00e1vel, retirada de Saramago das leituras obrigat\u00f3rias vem exactamente enquadrada numa dessas actualiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-center\">\n<blockquote><p>Ao contr\u00e1rio do que o imagin\u00e1rio popular diz, o Nobel da literatura n\u00e3o \u00e9 a sagra\u00e7\u00e3o m\u00e1xima da qualidade liter\u00e1ria de um autor.<\/p><\/blockquote>\n<\/figure>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Actualmente tem obrigatoriamente de se lecionar uma obra de Saramago. Os professores decidem entre o <i>Memorial do Convento<\/i> ou <i>O ano da morte de Ricardo Reis<\/i>; os alunos depois l\u00eaem e, espera-se, aprendem a interpretar.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">A mudan\u00e7a passar\u00e1 a permitir que os professores optem por uma dessas duas obras de Saramago ou ent\u00e3o por <i>Um deus passeando pela brisa da tarde<\/i> de M\u00e1rio de Carvalho. Em termos pr\u00e1ticos, vai conseguir sair-se da escolaridade obrigat\u00f3ria sem ler uma palavra de Saramago.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Porque a mudan\u00e7a \u00e9 de l\u00f3gica um bocado opaca, cria um tipo de alternativa com poucas semelhan\u00e7as no resto do programa, e tem um governo de direita no fundo a eliminar a obrigatoriedade de um pr\u00e9mio Nobel entrincheiradamente de esquerda, a pol\u00e9mica ganhou umas pernas jeitosas. Vivermos numa era de redes sociais, claro, tamb\u00e9m ajudou.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Em pouco mais de uma semana, publicou-se cr\u00f3nica atr\u00e1s de cr\u00f3nica mais uma tremenda profus\u00e3o de comet\u00e1rio por redes sociais e espa\u00e7os p\u00fablicos. Quase sempre proclamou-se o fim do ensino exigente, declarando que com Saramago n\u00e3o mais obrigat\u00f3rio vai-se-nos a literatura complexa e a riqueza lexical do programa. \u00c9 um pren\u00fancio t\u00e3o desfasado dos factos que s\u00f3 pode concluir-se que a maioria do nosso espa\u00e7o de opini\u00e3o ou l\u00ea pouco, ou esqueceu-se de mudan\u00e7as anteriores ao programa, ou ent\u00e3o n\u00e3o sabe argumentar.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Comecemos por isto: ao contr\u00e1rio do que o imagin\u00e1rio popular diz, o Nobel da literatura n\u00e3o \u00e9 a sagra\u00e7\u00e3o m\u00e1xima da qualidade liter\u00e1ria de um autor, da mesma forma que raramente o Oscar vai de facto para o melhor filme do ano. Todos os pr\u00e9mios possuem as suas idiossincrasias, pol\u00edticas, e enviesamentos. Convenhamos, Dylan tem um Nobel da literatura e haver\u00e1 poucos tolos a tentar defender que o canto-autor americano est\u00e1 entre os expoentes m\u00e1ximos da literatura do s\u00e9culo XX ou XXI. Mesmo numa competi\u00e7\u00e3o de letristas haveria v\u00e1rios outros candidatos t\u00e3o bons ou melhores do que Dylan.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Esse \u00e9 o segundo aspecto importante a ter em conta quando se discutem pr\u00e9mios: h\u00e1 sempre quem fique de fora n\u00e3o por falta de qualidade mas por circunst\u00e2ncias v\u00e1rias. O facto de termos apenas um Nobel da literatura n\u00e3o significa que Saramago fosse o \u00fanico autor portugu\u00eas digno do pr\u00e9mio. A Academia sueca tenta ir variando as nacionalidades dos autores at\u00e9 para assegurar a dimens\u00e3o internacional do galard\u00e3o, o que n\u00e3o favorece as hip\u00f3teses de um pa\u00eds do tamanho de Portugal que para mais nunca se afincou a criar uma reputa\u00e7\u00e3o de reduto incontorn\u00e1vel da literatura mundial; o marketing nacional \u00e9 mais bolos, praias, e sol do que colosso cultural. Al\u00e9m disso, durante d\u00e9cadas o Nobel da literatura teve uma componente pol\u00edtica consider\u00e1vel. Isso beneficiou de certo Saramago, mas n\u00e3o abonou a favor de Lobo Antunes que sempre manteve uma maior preocupa\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio intelecto do que com a sociedade em geral. Ademais, o pa\u00eds n\u00e3o soube projectar outros autores com verdadeiras hip\u00f3teses de ganhar um Nobel. Maria Teresa Horta, por exemplo, tinha uma obra inventiva tanto na forma como na fr\u00e1sica, que atravessava poesia, fic\u00e7\u00e3o, e ensaio com um olhar que ia bem al\u00e9m das suas pr\u00f3prias viv\u00eancias. Portugal, por\u00e9m, incluindo o meio intelectual, s\u00f3 muito tarde se decidiu a parar de olhar para o feminismo de Maria Teresa Horta como mat\u00e9ria de nicho, ou mesmo irrita\u00e7\u00e3o, e passar enfim a reconhecer-lhe a qualidade liter\u00e1ria e a import\u00e2ncia nas ac\u00e7\u00f5es que ajudaram a avan\u00e7ar a sociedade portuguesa. Veio demasiado tarde. O reconhecimento internacional estava l\u00e1, incluindo por figuras como Simone de Beauvoir, e manteve-se mesmo em anos recentes. Ali\u00e1s, em 2024 a BBC chegou a incluir Teresa Horta na lista das cem mulheres mais influentes do mundo. Entretanto por c\u00e1 continuavamos investidos nos mesmos de sempre.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-pullquote alignright\">\n<blockquote><p>O marketing nacional \u00e9 mais bolos, praias, e sol do que colosso cultural.<\/p><\/blockquote>\n<\/figure>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">\u00c0 parte todas as quest\u00f5es sobre o que um Nobel reconhece ou n\u00e3o, acresce que a obra de M\u00e1rio de Carvalho proposta pela nova revis\u00e3o curricular \u00e9 um gigante da literatura. Um daqueles livros que percebe tanto de narrativa quanto de lingu\u00edstica aplicada.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">A imensa riqueza lexical de <i>Um deus passeando pela brisa da tarde<\/i> ajuda a demonstrar o intelecto do narrador-protagonista, enquanto que os termos utilizados refor\u00e7am a sensa\u00e7\u00e3o de se estar em pleno per\u00edodo do Imp\u00e9rio Romano. Do mesmo modo, a estrutura do texto, a fr\u00e1sica, o tom e as figuras de estilo usadas, tudo o que o texto sugere sem o tornar expl\u00edcito, no fundo as v\u00e1rias t\u00e9cnicas de escrita a que M\u00e1rio de Carvalho recorre, n\u00e3o s\u00f3 refor\u00e7am as tem\u00e1ticas do livro como v\u00e3o estabelecendo um certo pren\u00fancio dos eventos a acontecer. S\u00e3o tamb\u00e9m uma forma de embrenharem os leitores mas quest\u00f5es sociais, pol\u00edticas, e religiosas com que a obra se debate.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Perante uma obra de semelhante gambarito n\u00e3o d\u00e1 para arranjar profundidade em clamores sobre esta proposta curricular matar o ensino da literatura exigente. Seria uma forma limpinha de arrasar um governo de direita a retirar espa\u00e7o a um Nobel de esquerda \u2013 da\u00ed a pressa toda em adoptar estes argumentos \u2013, mas infelizmente os factos n\u00e3o se puseram a jeito.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Pior ainda, M\u00e1rio de Carvalho \u00e9 ele pr\u00f3prio um homem assumidamente de esquerda. E depois esta proposta ainda vai e torna obrigat\u00f3rios alguns textos de Nat\u00e1lia Correia, ela que, para al\u00e9m de um papel fulcral na publica\u00e7\u00e3o de textos feministas em Portugal, nunca se coibiu de arrasar gente de direita enquanto foi deputada no parlamento.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Fica complicado acusar a mudan\u00e7a de querer cancelar vozes favor\u00e1veis \u00e0 esquerda. Ali\u00e1s, come\u00e7o \u00e9 a simpatizar com uma revis\u00e3o que eleva autores como Nat\u00e1lia Correia e M\u00e1rio de Carvalho.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Talvez seja um golpe de g\u00e9nio do governo de Montenegro. Completa raridade mas, enfim, at\u00e9 os rel\u00f3gios parados acertam duas vezes por dia.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">A verdade \u00e9 que o PSD sempre conviveu mal com Saramago. Dois casos emblem\u00e1ticos:<\/p>\n<figure class=\"wp-block-pullquote alignleft\">\n<blockquote><p>Compreende-se que se tenha detectado um certo cheiro a esturro nesta idea de retirar as obras de Saramago das leituras obrigat\u00f3rias.<\/p><\/blockquote>\n<\/figure>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Em 1992, seis anos antes do atribui\u00e7\u00e3o do Nobel, Sousa Lara impediu a participa\u00e7\u00e3o de Saramago no Pr\u00e9mio Liter\u00e1rio Europeu. Quase vinte anos depois, Cavaco falhou o funeral, pese embora estivesse em fun\u00e7\u00f5es como Presidente da Rep\u00fablica e naturalmente se esperasse a compar\u00eancia de todas as figuras centrais do Estado no funeral do nosso \u00fanico Nobel da literatura.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Compreende-se perfeitamente que uma boa parte dos comentadores, escritores, e intelectuais portugueses tenha detectado um certo cheiro a esturro nesta idea de retirar as obras de Saramago das leituras obrigat\u00f3rias. Pena termos ca\u00eddo na esparrela de centrar todo o debate nas quest\u00f5es erradas.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Resumindo, h\u00e1 motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na actual proposta? Talvez. Provavelmente. Caem o Carmo e a Trindade da qualidade do ensino liter\u00e1rio em Portugal se a mudan\u00e7a avan\u00e7ar? N\u00e3o, de maneira nenhuma.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">O ensino obrigat\u00f3rio existe para garantir que todos os alunos t\u00eam uma forma\u00e7\u00e3o base comum. \u00c9 tanto uma forma de criar alicerces que depois permitem outros voos como um passo essencial para um pa\u00eds nutrir todos os seus cidad\u00e3os. Ainda n\u00e3o se inventou melhor elevador social.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-center\">\n<blockquote><p>O ensino pr\u00e9-universit\u00e1rio da literatura deve estabelecer uma esp\u00e9cie de c\u00e2none nacional transmitido a todos os alunos?<\/p><\/blockquote>\n<\/figure>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">A quest\u00e3o central em toda esta pol\u00e9mica sobre o estatuto de Saramago no programa praticamente nem foi referida: o ensino pr\u00e9-universit\u00e1rio da literatura deve estabelecer uma esp\u00e9cie de c\u00e2none nacional transmitido a todos os alunos?<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Se assumirmos que sim, no fundo declaramos que h\u00e1 obras ou autores fulcrais que temos de perpetuar de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Isso implica leituras obrigat\u00f3rias, e requer algu\u00e9m que decida crit\u00e9rios e depois estabele\u00e7a escolhas. At\u00e9 agora, esses crit\u00e9rios nunca se tornaram claros, em especial para obras a partir de meados do s\u00e9culo XX, o que complica qualquer defesa da obrigatoriedade de Saramago. E nem estamos sequer a entrar no facto de os c\u00e2nones virem inevitavelmente pejados de escolhas subjectivas, ou de como tudo isto nos leva para o campo das tentativas de educar o gosto, outra \u00e1rea n\u00e3o s\u00f3 atulhada de subjectividades e pensadores como altamente propensa a moralismos intelectuais.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Se, por outro lado, dispensarmos um c\u00e2none para o ensino obrigat\u00f3rio, s\u00f3 precisamos de sugest\u00f5es de leitura. Ficamos \u00e9 se calhar um bocado \u00f3rf\u00e3os de cl\u00e1ssicos e dos tais alicerces comuns.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">A virtude, desconfio, est\u00e1 no meio.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Voltemos ao in\u00edcio: O programa de portugu\u00eas tem-se flexibilizado com os anos. H\u00e1 livros que entraram e sa\u00edram e v\u00e1rios que giram pelo reino das sugest\u00f5es, o que significa que h\u00e1 muito dispensamos obrigatoriedades r\u00edgidas. \u00c9 uma abordagem que ajuda a demonstrar a variedade da literatura, permite aos professores seleccionar obras que poder\u00e3o funcionar melhor para a turma e em quest\u00e3o, e cria mais possibilidades de os alunos darem com textos de que gostam, o que talvez leve a um maior prazer em ler e consequentemente a melhores h\u00e1bitos de leitura.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Portanto, o que \u00e9 que deveria ficar como impreterivelmente obrigat\u00f3rio? O modelo ingl\u00eas limpa tudo menos Shakespeare. Transposto para c\u00e1 dava algo tipo Cam\u00f5es obrigat\u00f3rio e tudo o resto como se queira. Parece um bocado redutor.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Talvez o mais seguro seja dar como obrigat\u00f3ria a literatura que, por um ou outro motivo, se insinuou no imagin\u00e1rio nacional e faz parte da nossa linguagem comum. Isso significa Cam\u00f5es, E\u00e7a, Pessoa. Tamb\u00e9m as cantigas de amigo e um ou outro poema de Sophia (o dia inicial inteiro e limpo mais depois algum mar). Se calhar um pouco de teatro \u2013 Gil Vicente, Garrett, Lu\u00eds de Sttau Monteiro. Padre Ant\u00f3nio Vieira para a ret\u00f3rica? Provavelmente. E estar\u00e1 mais ou menos feito.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-center\">\n<blockquote><p>Talvez o mais seguro seja dar como obrigat\u00f3ria a literatura que, por um ou outro motivo, se insinuou no imagin\u00e1rio nacional e faz parte da nossa linguagem comum.<\/p><\/blockquote>\n<\/figure>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Saramago estaria sem d\u00favida na lista de leituras, e de prefer\u00eancia com muito mais obras do que hoje. No m\u00ednimo tanto o <i>Ensaio sobre a cegueira<\/i> como <i>O evangelho segundo Jesus Cristo<\/i> fazem falta ao programa actual, quer pelos temas tratados quer por terem um tipo de acutil\u00e2ncia que tende a agarrar melhor o p\u00fablico jovem (sim, incluir <i>O evangelho<\/i> causaria apoplexias a muito boa gente, mas isso at\u00e9 lhe daria pontos extra com os alunos; livros que irritam adultos ganham logo muit\u00edssimo mais apelo para adolescentes). Agora quanto a ser uma das incontorn\u00e1veis leituras obrigat\u00f3rias, ap\u00f3s vinte anos e com muito mais leituras em cima, vou acabar por dizer que n\u00e3o.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">O tempo escolar \u00e9 limitado, nem estica nem d\u00e1 para tudo, e o Nobel permanece mesmo o maior argumento a favor de tornar Saramago obrigat\u00f3rio. Um Nobel, por\u00e9m, n\u00e3o converte as obras de um autor em parte da identidade ou do imagin\u00e1rio nacional, ainda que em geral tenha esse efeito para os pr\u00f3prios autores. Tamb\u00e9m n\u00e3o significa que o laureado \u00e9 um escritor mais inventivo, crucial, ou excelso cronista dos seus tempos do que v\u00e1rios dos seus pares. N\u00e3o h\u00e1 motivos pedag\u00f3gicos para salientar Saramago em vez de Verg\u00edlio Ferreira, Maria Teresa Horta, M\u00e1rio de Carvalho, Nat\u00e1lia Correia, ou tantos, tantos outros.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\" align=\"justify\">Al\u00e9m disso, quem sabe, talvez Portugal tenha em breve um segundo Nobel da literatura. L\u00eddia Jorge est\u00e1 a aparecer bem cotada nas previs\u00f5es. T\u00e3o ou melhor do que Margaret Atwood, Salman Rushdie, e Karl Ove Knausg\u00e5rd. Esperemos que o pa\u00eds saiba apoi\u00e1-la e montar a campanha de marketing adequada.<\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos idos de 2004 havia um livro em especial que reunia como nenhum outro a ira e descontentamento de centenas, qui\u00e7\u00e1 milhares de alunos do secund\u00e1rio em Portugal: Apari\u00e7\u00e3o. A obra de Verg\u00edlio Ferreira animava de tal forma os \u00f3dios \u00e0s leituras obrigat\u00f3rias de portugu\u00eas que conseguia superar at\u00e9 o lend\u00e1rio desamor por aquela excelente, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1394,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[56],"tags":[83],"class_list":["post-1393","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-frontpage"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1393","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1393"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1393\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1401,"href":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1393\/revisions\/1401"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1394"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1393"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1393"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/inesbotelho.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1393"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}