
Fiz trinta e sete anos no passado Agosto, e depois em Setembro completei vinte de carreira enquanto escritora profissional. Excelentes desculpas para nostalgia e retrospectivas. E de facto, durante uma semana ou duas ainda considerei fazer um resumo destes anos, ou partilhar lições aprendidas, mas ambas as hipóteses entravam demasiado no campo dos exercícios constrangedores e desnecessários, já para não dizer pretensiosos. Mesmo assim, a verdade é que sei umas quantas coisas enquanto leitora e escritora. Também ando a encontrar uma variedade de listas de conselhos demasiado vagos ou crípticos para quem não tem anos de experiência acumulada. Além de que a velhinha mitologização da escrita ou da criatividade continua por demais viva.
Malgrado a variedade de histórias sobre génios a produzirem um esboço perfeito de uma só tirada ao longo de uma única noite solitária, isso não passam de fantasias. Quando uma frase não resulta, ou um parágrafo sai amorfo, apenas uma técnica robusta funciona. E é mais uma vez a técnica que ajuda a perceber como desenvolver imagens incisivas, ou quando e como as revisitar de modo a criar crescendos e aproveitar simbolismos.
Portanto aqui fica uma lista de vinte dicas de escrita, dezasseis verdades sobre a leitura, e algo a ter sempre em atenção.
1. Esqueçam a página em branco. Escrevam qualquer coisa, e depois outra e mais uma e outra a seguir. Podem sempre reescrever e aperfeiçoar o início ou qualquer outra parte mais tarde.
2. Escrever é reescrever, mas também saber quando parar. Não fiquem contentes com um primeiro esboço, não se permitam escrever cem versões diferentes. Encontrem um bom equilíbrio.
3. Certos escritores planeiam tudo antecipadamente, até com esquemas e itinerários detalhados. Muitos decidem apenas meia dúzia de aspectos essenciais – o princípio, o fim, uns quantos pontos pelo meio. Outros deixam-se ir em queda livre ao longo do primeiro esboço. Não existem abordagens erradas.
4. Vão precisar de gramática, sintaxe, retórica, estrutura, melodia, significado, e dedicação a todos ao mesmo tempo.
5. Qualquer texto tem mais do que uma camada, mesmo que aconteça por mero acaso. Mantenham-se atentos a tudo o que o texto efectivamente diz e sugere. Usem-no.
6. Talento só funciona até certo ponto; técnica é essencial. Tem de se saber as regras antes de as quebrar eficazmente. E mesmo aí continuarão a precisar de confirmar a gramática de vez em quando.
7. Mantenham por perto pelo menos dois dicionários de confiança mais um bom dicionário de sinónimos. Cultivem o hábito de os usar diariamente.
8. Se precisarem de ler uma frase duas vezes, ou pararem a meio de uma frase, ou houver algo a obstruir o fluxo do texto, têm de reescrever essa frase.
9. Assim que mexerem numa frase podem precisar de retocar o parágrafo inteiro, mais ainda o anterior e o seguinte também. Comecem a ler pelo menos dez linhas antes da frase alterada, e continuem a ler por mais dez.
10. Desviem-se dos verbos ser e estar tanto quanto possível. Ambos surgem com bastante facilidade e podem parecer opções confortáveis, mas, excepto quando se quer imitar os ritmos da oralidade, um e outro tendem a sinalizar uma certa imaturidade de escrita. Usem-nos estrategicamente para criar ênfase ou estilos específicos.
11. Vigiem os adjectivos. Não os deixem afundar um texto em vacuidades ou grandiosidades imprudentes. Se tiverem três seguidos, adicionem mais dois; cinco adjectivos seguidos convertem-se numa figura de estilo tão clara quanto intencional.
12. Lembrem-se que quase qualquer coisa pode funcionar como figura de estilo, verbos e estrutura incluídos. Sejam intencionais.
13. Evitem repetição próxima das mesmas palavras a menos que isso sirva o texto. A aliteração segue o mesmo princípio.
14. Agitar e mexer. Uma boa mistura de verbos, substantivos, adjectivos, advérbios, e uma variedade de outros elementos dispostos de diversas formas ajuda a criar diferentes ritmos e a tornar um texto mais dinâmico. Aplica-se o mesmo à estrutura. E também a géneros literários.
15. “Mostrar, não contar” pode ter muitos significados e nem sempre faz sentido. Vale mais lembrar que a escrita precisa de narrativas, não de listas de eventos ou enumeração de emoções.
16. Narrativa não é o mesmo que narração (ou “storytelling”), mas toda a narração deve servir a narrativa. Narração resume-se a estrutura. Narrativas encaminham os leitores para as ideias e interpretações desejadas.
17. A escrita deve desencadear humores, ambiências, sensações, mas também não pode depender apenas de sentimentos. Não ficção, em particular fora do âmbito da autobiografia, torna-se mais forte quando apresenta uma abundância de factos. Ficção precisa de pelo menos alguns eventos para ajudar os leitores a avançarem. Poesia é um caso à parte.
18. Tanto na ficção como na não ficção, assumam que o leitor não sabe nada. Na ficção podem aproveitar-se disso.
19. Criem ecos. Ajuda se o primeiro parágrafo sugerir o tema principal do texto e o último rematar devidamente a tese ou mensagem. Na não ficção isso costuma envolver uma abordagem mais directa e literal. A ficção consegue acomodar meios mais indirectos, e também uma boa dose de simbolismo.
20. A legibilidade importa. Regra geral, não tornem o texto críptico ou floreado. Nada disso dá entrada garantida nos reinos da literatura. Ademais, nem literatura nem o literário excluem géneros, simplesmente exploram múltiplos ângulos e vozes, adentrando-se por diversos assuntos enquanto exploram formas e estilos.
21. Leitura é leitura é leitura. Livros, poemas, artigos, guiões, revistas, jornais, blogues, ficções de fãs, tudo conta como leitura, incluindo audiolivros.
22. Leiam como omnívoros. Dito de outro modo, abandonem preconceitos e experimentem tudo pelo menos uma vez. Caso contrário arriscam-se a não chegar a géneros e estilos que nem imaginam que vos agradam.
23. Escritores têm de ler mais do que escrevem. E têm de ler de forma vasta e extensa enquanto analisam, ou pelo menos notam, as diferentes técnicas. Há perda de inocência neste processo, mas também riquezas ganhas.
24. Leiam o que está efectivamente escrito, não o que gostariam que o texto fosse ou dissesse.
25. Se tiverem de interpretar ou reinterpretar um texto, leiam pelo menos três análises críticas contraditórias. Escritores a desenvolverem novas versões de histórias existentes têm uma obrigação especial de irem ainda mais além na sua preparação.
26. Leiam múltiplos livros ao mesmo tempo se quiserem.
27. Deixem de ler durante meses se vos apetecer.
28. Leitores têm direito a ler apenas um capítulo de um dado livro e depois nunca mais lhe pegarem. Ou de saltarem capítulos ou lerem-nos forem de ordem, mas ficam por conta própria.
29. Parem de ler um texto quando quiserem, onde vos apetecer, por que motivo for. Regressem passados meses. Ou anos. Ou deixem-no para sempre inacabado, mas digam-no claramente se escreverem uma resenha e certifiquem-se que são justos com o autor.
30. Uma biblioteca funciona como conhecimento em potência, não como depósito de livros lidos.
31. Ter poucos ou nenhuns livros não vos torna leitores menores. Além disso as bibliotecas públicas são lugares maravilhosos.
32. Na dúvida, e caso o possam fazer, comprem o livro. Mesmo se ainda tiverem uma gigantesca pilha de livros para ler em casa, se puderem, comprem o livro e ponto.
33. Jamais queimem ou deitem livros fora. Vendê-los ou dá-los é perfeitamente adequado.
34. Não anotem livros. Façam-no. Usem uma caneta. Usem lápis. Abusem dos marcadores de tinta permanente. Façam o que quiserem desde que o livro vos pertença.
35. Se alguém vos emprestar um livro, tratem-no como o tesouro mais precioso do mundo. Devolvam-no em perfeito estado.
36. As pessoas mudam. Os gostos literários delas e a relação com a leitura também.
37. Usem sempre protector solar pelo menos no rosto e no pescoço. Mesmo no Inverno, mesmo dentro de portas. Nunca ninguém lamentou usar demasiado protector solar.