Nos idos de 2004 havia um livro em especial que reunia como nenhum outro a ira e descontentamento de centenas, quiçá milhares de alunos do secundário em Portugal: Aparição. A obra de Vergílio Ferreira animava de tal forma os ódios às leituras obrigatórias de português que conseguia superar até o lendário desamor por aquela excelente, embora algo exuberantemente longa descrição do Ramalhete com que Eça abre Os Maias. Onde Eça é de um ritmo imparável tanto a nível da frásica como do enredo, Vergílio enche-se de vagares; um crime dificilmente perdoavel no fulgor da adolescência.
Poucos anos depois a obrigatoriedade de Vergílio desapareceu dos agrupamentos alheios às humanidades de modo a permitir a entrada de Saramago, e os alunos puderam transferir as suas insatisfações para Belimunda e frases menos dadas a pontuação tradicional.
Ainda se debateu um pouco o assunto por jornais e meios intelectuais, em geral com um lado a dizer “Saramago é o único Nobel da literatura que temos, portanto não pode faltar no programa”, e o outro a achar que “exactamente porque Saramago é Nobel, os alunos têm muito mais probabilidade de o lerem fora da escola do que de abrirem o Aparição.” Mas no fundo a questão deu-se por encerrada sem grandes dúvidas ou celeumas. Afinal, Saramago era Nobel já desde 1998 e começava a parecer um bocado displicente que ainda não constasse das leituras obrigatórias do programa de português.
Eu – acabada de sair do secundário, com dois livros publicados e um terceiro, significativamente mais maduro, na calha – fiquei com uma certa pena de empurrarmos o Aparição para fora das leituras obrigatórias. Ao contrário de todos os meus amigos, colegas, e conhecidos, a obra de Vergílio fora a minha preferida dos primeiros doze anos de escolaridade. Aliás, o dito cujo terceiro livro aprendera uma coisa ou trinta (não necessariamente bem aplicadas) com o Aparição. Se me pediram a opinião na altura, provavelmente até disse algo sobre a maior facilidade de dar com Saramago por iniciativa própria do que com Vergílio. Não que discordasse de ter Saramago no programa; só preferia que se sacrificasse outra obra para o efeito. E se isso perpetuava traumas geracionais com os vagares do professor de Évora que protagoniza o Aparição, enfim, há anos que isso fazia parte da experiência escolar e nem estava entre os piores ritos de passagem.
Entretanto as obras de leitura obrigatória têm vindo a afrouxar enquanto matéria prima para os grandes traumas colectivos dos alunos em Portugal. Uma certa flexibilização do programa, que permite aos professores escolher as obras a ler de entre algumas opções por autor ou meta curricular, acabou com essa relíquia nacional de unir alunos de Norte a Sul num ódio generalizado a certos livros. Agora até dá para se sair da escolaridade obrigatória sem qualquer encontro imediato com o Ramalhete dos Maias. E felizmente diversificou-se também o leque de autores a ler.
A grande polémica deste ano sobre a possível, e de facto provável, retirada de Saramago das leituras obrigatórias vem exactamente enquadrada numa dessas actualizações.
Ao contrário do que o imaginário popular diz, o Nobel da literatura não é a sagração máxima da qualidade literária de um autor.
Actualmente tem obrigatoriamente de se lecionar uma obra de Saramago. Os professores decidem entre o Memorial do Convento ou O ano da morte de Ricardo Reis; os alunos depois lêem e, espera-se, aprendem a interpretar.
A mudança passará a permitir que os professores optem por uma dessas duas obras de Saramago ou então por Um deus passeando pela brisa da tarde de Mário de Carvalho. Em termos práticos, vai conseguir sair-se da escolaridade obrigatória sem ler uma palavra de Saramago.
Porque a mudança é de lógica um bocado opaca, cria um tipo de alternativa com poucas semelhanças no resto do programa, e tem um governo de direita no fundo a eliminar a obrigatoriedade de um prémio Nobel entrincheiradamente de esquerda, a polémica ganhou umas pernas jeitosas. Vivermos numa era de redes sociais, claro, também ajudou.
Em pouco mais de uma semana, publicou-se crónica atrás de crónica mais uma tremenda profusão de cometário por redes sociais e espaços públicos. Quase sempre proclamou-se o fim do ensino exigente, declarando que com Saramago não mais obrigatório vai-se-nos a literatura complexa e a riqueza lexical do programa. É um prenúncio tão desfasado dos factos que só pode concluir-se que a maioria do nosso espaço de opinião ou lê pouco, ou esqueceu-se de mudanças anteriores ao programa, ou então não sabe argumentar.
Comecemos por isto: ao contrário do que o imaginário popular diz, o Nobel da literatura não é a sagração máxima da qualidade literária de um autor, da mesma forma que raramente o Oscar vai de facto para o melhor filme do ano. Todos os prémios possuem as suas idiossincrasias, políticas, e enviesamentos. Convenhamos, Dylan tem um Nobel da literatura e haverá poucos tolos a tentar defender que o canto-autor americano está entre os expoentes máximos da literatura do século XX ou XXI. Mesmo numa competição de letristas haveria vários outros candidatos tão bons ou melhores do que Dylan.
Esse é o segundo aspecto importante a ter em conta quando se discutem prémios: há sempre quem fique de fora não por falta de qualidade mas por circunstâncias várias. O facto de termos apenas um Nobel da literatura não significa que Saramago fosse o único autor português digno do prémio. A Academia sueca tenta ir variando as nacionalidades dos autores até para assegurar a dimensão internacional do galardão, o que não favorece as hipóteses de um país do tamanho de Portugal que para mais nunca se afincou a criar uma reputação de reduto incontornável da literatura mundial; o marketing nacional é mais bolos, praias, e sol do que colosso cultural. Além disso, durante décadas o Nobel da literatura teve uma componente política considerável. Isso beneficiou de certo Saramago, mas não abonou a favor de Lobo Antunes que sempre manteve uma maior preocupação com o próprio intelecto do que com a sociedade em geral. Ademais, o país não soube projectar outros autores com verdadeiras hipóteses de ganhar um Nobel. Maria Teresa Horta, por exemplo, tinha uma obra inventiva tanto na forma como na frásica, que atravessava poesia, ficção, e ensaio com um olhar que ia bem além das suas próprias vivências. Portugal, porém, incluindo o meio intelectual, só muito tarde se decidiu a parar de olhar para o feminismo de Maria Teresa Horta como matéria de nicho, ou mesmo irritação, e passar enfim a reconhecer-lhe a qualidade literária e a importância nas acções que ajudaram a avançar a sociedade portuguesa. Veio demasiado tarde. O reconhecimento internacional estava lá, incluindo por figuras como Simone de Beauvoir, e manteve-se mesmo em anos recentes. Aliás, em 2024 a BBC chegou a incluir Teresa Horta na lista das cem mulheres mais influentes do mundo. Entretanto por cá continuavamos investidos nos mesmos de sempre.
O marketing nacional é mais bolos, praias, e sol do que colosso cultural.
À parte todas as questões sobre o que um Nobel reconhece ou não, acresce que a obra de Mário de Carvalho proposta pela nova revisão curricular é um gigante da literatura. Um daqueles livros que percebe tanto de narrativa quanto de linguística aplicada.
A imensa riqueza lexical de Um deus passeando pela brisa da tarde ajuda a demonstrar o intelecto do narrador-protagonista, enquanto que os termos utilizados reforçam a sensação de se estar em pleno período do Império Romano. Do mesmo modo, a estrutura do texto, a frásica, o tom e as figuras de estilo usadas, tudo o que o texto sugere sem o tornar explícito, no fundo as várias técnicas de escrita a que Mário de Carvalho recorre, não só reforçam as temáticas do livro como vão estabelecendo um certo prenúncio dos eventos a acontecer. São também uma forma de embrenharem os leitores mas questões sociais, políticas, e religiosas com que a obra se debate.
Perante uma obra de semelhante gambarito não dá para arranjar profundidade em clamores sobre esta proposta curricular matar o ensino da literatura exigente. Seria uma forma limpinha de arrasar um governo de direita a retirar espaço a um Nobel de esquerda – daí a pressa toda em adoptar estes argumentos –, mas infelizmente os factos não se puseram a jeito.
Pior ainda, Mário de Carvalho é ele próprio um homem assumidamente de esquerda. E depois esta proposta ainda vai e torna obrigatórios alguns textos de Natália Correia, ela que, para além de um papel fulcral na publicação de textos feministas em Portugal, nunca se coibiu de arrasar gente de direita enquanto foi deputada no parlamento.
Fica complicado acusar a mudança de querer cancelar vozes favoráveis à esquerda. Aliás, começo é a simpatizar com uma revisão que eleva autores como Natália Correia e Mário de Carvalho.
Talvez seja um golpe de génio do governo de Montenegro. Completa raridade mas, enfim, até os relógios parados acertam duas vezes por dia.
A verdade é que o PSD sempre conviveu mal com Saramago. Dois casos emblemáticos:
Compreende-se que se tenha detectado um certo cheiro a esturro nesta idea de retirar as obras de Saramago das leituras obrigatórias.
Em 1992, seis anos antes do atribuição do Nobel, Sousa Lara impediu a participação de Saramago no Prémio Literário Europeu. Quase vinte anos depois, Cavaco falhou o funeral, pese embora estivesse em funções como Presidente da República e naturalmente se esperasse a comparência de todas as figuras centrais do Estado no funeral do nosso único Nobel da literatura.
Compreende-se perfeitamente que uma boa parte dos comentadores, escritores, e intelectuais portugueses tenha detectado um certo cheiro a esturro nesta idea de retirar as obras de Saramago das leituras obrigatórias. Pena termos caído na esparrela de centrar todo o debate nas questões erradas.
Resumindo, há motivação política na actual proposta? Talvez. Provavelmente. Caem o Carmo e a Trindade da qualidade do ensino literário em Portugal se a mudança avançar? Não, de maneira nenhuma.
O ensino obrigatório existe para garantir que todos os alunos têm uma formação base comum. É tanto uma forma de criar alicerces que depois permitem outros voos como um passo essencial para um país nutrir todos os seus cidadãos. Ainda não se inventou melhor elevador social.
O ensino pré-universitário da literatura deve estabelecer uma espécie de cânone nacional transmitido a todos os alunos?
A questão central em toda esta polémica sobre o estatuto de Saramago no programa praticamente nem foi referida: o ensino pré-universitário da literatura deve estabelecer uma espécie de cânone nacional transmitido a todos os alunos?
Se assumirmos que sim, no fundo declaramos que há obras ou autores fulcrais que temos de perpetuar de geração em geração. Isso implica leituras obrigatórias, e requer alguém que decida critérios e depois estabeleça escolhas. Até agora, esses critérios nunca se tornaram claros, em especial para obras a partir de meados do século XX, o que complica qualquer defesa da obrigatoriedade de Saramago. E nem estamos sequer a entrar no facto de os cânones virem inevitavelmente pejados de escolhas subjectivas, ou de como tudo isto nos leva para o campo das tentativas de educar o gosto, outra área não só atulhada de subjectividades e pensadores como altamente propensa a moralismos intelectuais.
Se, por outro lado, dispensarmos um cânone para o ensino obrigatório, só precisamos de sugestões de leitura. Ficamos é se calhar um bocado órfãos de clássicos e dos tais alicerces comuns.
A virtude, desconfio, está no meio.
Voltemos ao início: O programa de português tem-se flexibilizado com os anos. Há livros que entraram e saíram e vários que giram pelo reino das sugestões, o que significa que há muito dispensamos obrigatoriedades rígidas. É uma abordagem que ajuda a demonstrar a variedade da literatura, permite aos professores seleccionar obras que poderão funcionar melhor para a turma e em questão, e cria mais possibilidades de os alunos darem com textos de que gostam, o que talvez leve a um maior prazer em ler e consequentemente a melhores hábitos de leitura.
Portanto, o que é que deveria ficar como impreterivelmente obrigatório? O modelo inglês limpa tudo menos Shakespeare. Transposto para cá dava algo tipo Camões obrigatório e tudo o resto como se queira. Parece um bocado redutor.
Talvez o mais seguro seja dar como obrigatória a literatura que, por um ou outro motivo, se insinuou no imaginário nacional e faz parte da nossa linguagem comum. Isso significa Camões, Eça, Pessoa. Também as cantigas de amigo e um ou outro poema de Sophia (o dia inicial inteiro e limpo mais depois algum mar). Se calhar um pouco de teatro – Gil Vicente, Garrett, Luís de Sttau Monteiro. Padre António Vieira para a retórica? Provavelmente. E estará mais ou menos feito.
Talvez o mais seguro seja dar como obrigatória a literatura que, por um ou outro motivo, se insinuou no imaginário nacional e faz parte da nossa linguagem comum.
Saramago estaria sem dúvida na lista de leituras, e de preferência com muito mais obras do que hoje. No mínimo tanto o Ensaio sobre a cegueira como O evangelho segundo Jesus Cristo fazem falta ao programa actual, quer pelos temas tratados quer por terem um tipo de acutilância que tende a agarrar melhor o público jovem (sim, incluir O evangelho causaria apoplexias a muito boa gente, mas isso até lhe daria pontos extra com os alunos; livros que irritam adultos ganham logo muitíssimo mais apelo para adolescentes). Agora quanto a ser uma das incontornáveis leituras obrigatórias, após vinte anos e com muito mais leituras em cima, vou acabar por dizer que não.
O tempo escolar é limitado, nem estica nem dá para tudo, e o Nobel permanece mesmo o maior argumento a favor de tornar Saramago obrigatório. Um Nobel, porém, não converte as obras de um autor em parte da identidade ou do imaginário nacional, ainda que em geral tenha esse efeito para os próprios autores. Também não significa que o laureado é um escritor mais inventivo, crucial, ou excelso cronista dos seus tempos do que vários dos seus pares. Não há motivos pedagógicos para salientar Saramago em vez de Vergílio Ferreira, Maria Teresa Horta, Mário de Carvalho, Natália Correia, ou tantos, tantos outros.
Além disso, quem sabe, talvez Portugal tenha em breve um segundo Nobel da literatura. Lídia Jorge está a aparecer bem cotada nas previsões. Tão ou melhor do que Margaret Atwood, Salman Rushdie, e Karl Ove Knausgård. Esperemos que o país saiba apoiá-la e montar a campanha de marketing adequada.
