
A Odisseia de Christopher Nolan vale alguma coisa?
Claro que sim. Portanto toma, lei das manchetes de Betteridge; este artigo começa com uma pergunta a que pode sem dúvida alguma responder-se com uma afirmativa. Suponho que o Betteridge não tinha lá muita experiência com atrair tráfego à custa de acicatar raivas.
Christopher Nolan sabe realizar. Aliás até os seus filmes mais mediocres dão um entretem decente e têm uma mensagem concreta a transmitir. Não acho que lhe reste muito de interessante para dizer, mas também não me atreveria a argumentar que obra de Nolan carece de qualidade ou não sabe construir camadas de significação. Certo que não gosto realmente dum filme de Nolan desde Interstellar (2014), e isso foi já depois dum longo hiato (e a fazer ao máximo por ignorar o melaço daquelas falas sobre o amor). Se estivermos a falar de me apaixonar perdidamente por um filme de Nolan, enfim, vou precisar de recuar até Memento (2000). Mas nada disso me faz pôr para aqui a argumentar que este Odyssey ficará aquém de um filme em tudo competente.
Agora, The Odyssey de Christopher Nolan é necessário? É sequer especialmente relevante para os tempos que vivemos?
Nem por isso.
Com base nos trailers e nas obras anteriores de Nolan, torna-se mais ou menos seguro apostar que vamos a caminho de uma Odisseia do mundano, não uma de fascínios ou maravilhamento. Afinal Nolan ficou famoso à custa de tornar o Batman tão hiper-realista quanto possível. Mas ver nisso uma faceta emblemática dos nossos tempos esquece que andámos há quade duas décadas com a cultura dominada por exageros fantasiosos sobre super-heróis. Realismo elegante não é bem a cena da Marvel, e não faz de todo parte do modus operandi desta nossa era de notícias falsas.
Acresce que adaptações da Odisseia não aparecem só de vez em quando. Há obras que ganham uma nova versão a cada geração – como Little Women, o Guerra e Paz, ou mesmo a habitual lista de super-heróis com a sua trindade de Super-Homen, Batman, Homem Aranha –, e depois há os mitos, contos de fadas, e clássicos da Antiguidade que acabam contados e recontados a cada novo ano. Semelhante frequência liberta-os de servirem de sinédoque dos tempos e converte-os em veículos perfeitos para autores experirmirem as suas ideias, opiniões, e interpretações socio-políticas.
A Odisseia teve aliás outra adaptação para cinema ainda há menos de dois anos. Não uma grande produção de Hollywood capaz de levar milhões às salas de cinema – nada que se compare com Nolan – mas ainda assim um filme de calibre respeitável que estreou em festivais, tem Ralph Fiennes e Juliette Binoche nos papéis principais, e desencadeou vários artigos em revistas e jornais a ponderar a atratividade da história de Ulisses. Depois eis que Nolan anunciou a sua adaptação e, pasme-se! os média redescobriram outra vez a Antiguidade Grega e a internet pôs-se a actuar como se os cantos de Homero fossem uma coisita obscura esquecida durante séculos e séculos.
Foi a adaptação que lançou mil publicações.
Imiscuirmo-nos em momentos culturais e oferecer um ou dois bitates sobre os assuntos com que toda a gente anda obcecada é quase uma necessidade para quem faz cometário cultural. Basta ver como os calendários editoriais sempre incluíram entradas dedicadas aos temas do momento. É uma forma fácil de atrair leitores, espectadores, e ouvintes. Posto em jargão de marketing, no fundo serve como autoestrada para ir de encontro às intenções de pesquisa do público, o que por outro lado melhora a performance em termos de SEO, GEO, AEO, e ajuda a aumentar o volume de cliques e visualizações que se tornaram tão absolutamente essenciais para que qualquer tipo de presença online consiga um módico de relevância.
Em todo o caso, boas publicações com algo inteteressante a dizer têm sempre muito melhores hipóteses de longividade do que coisas tipo “veja estes outros filmes se gostou da Odisseia de Nolan”. E além disso são uma das boas partes de um certo tema de repente virar fenómeno cultural: mais cedo ou mais tarde alguém vai publicar algo especialmente curioso ou pertinente sobre o assunto. Como Yiannis Baboulias, que escreveu sobre como a cultura grega perdurou depois do que costumamos considerar a queda do Império Romano mas que de facto corresponde apenas ao colapso do Império Romano Ocidental. Baboulias monta um bom caso quer quanto às implicações de o conhecimento comum ignorar esta distinção quer à forma como isso contribui para minimizar a cultura grega e a separar dos clássicos.
Se a actual febre pela Odisseia só tiver fervor suficiente para que o público descubra uma única coisa, que seja este texto de Baboulias. Se der para mais, Natalie Haynes a defender a Odisseia na rádio é um completo deleite; uns trinta minutos tanto hilariantes como informativos. E o filme O Brother, Where Art Thou? (2000) dos irmãos Coen permanece um grande candidato a melhor transposição da Odisseia para o contexto do século XX (não, por muito tecnicamente brilhante que o livro seja, não vou dar esse lugar ao Joyce).
Em matéria de romances, não consigo decidir-me. Tenho uma certa vontade de recomendar o Ithaca (2022) de Claire North porque é das adaptações mais originais dos últimos anos, tem algo de relevante a dizer sobre poetas e as narrativas que as sociedades constrõem, e além disso transforma a Hera numa narradora captivante, mas ainda não li o resto da trilogia e não faço ideia se o nível se mantém. The Penelopiad (2005) de Margaret Atwood põe toda a verve da escrita ao serviço de uma leitura feminista que me pareceu um bocadinho básica de mais. Do Circe (2018) de Madeline Miller gostei assim de modo moderado. Portanto, a sério, mais vale ler-se a Odisseia de Homero numa tradução decente e depois passar-se a outros textos gregos. A Ilíada, sem dúvida, mais algum teatro e depois uns autores romanos. Talvez até as Metamorfoses do Ovídio. As grandes adaptações de Hollywood também servem para isto de novos públicos descubrirem os textos originais.
Quanto ao filme de Nolan, as críticas apontam para o costume com ele: excelente cinematografia mas efeitos sonoros problemáticos, diálogos algo toscos embora com claras intenções narrativas, e uma produção com a escala monumental dos filmes de outrora ainda que nada interssada nos elementos fantásticos desses antigos épicos. Quando tiver uma oportunidade, logo me sento a vê-lo.
Toda a obra de Nolan tem-se debruçado sobre o conceito do masculino, sobre que narrativas, ideais, circunstâncias moldam um homem e a sua vida. Será interessante ver o que faz com as muitas contradições que caracterizam Ulisses, ele que é tanto filho como pai, marido e amante, guerreiro relutante mas estratega brilhante; líder dum grupo em que só ele sobrevivie, rei e trapaceiro.